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Artigo sobre interface entre ecologia comportamental e conservação biológica vence prêmio Capes-Natura

13 de Janeiro de 2017
Ecologia comportamental e conservação biológica em destaque
A interface entre ecologia comportamental e conservação biológica foi o ponto de partida para um dos artigos ganhadores do Prêmio Capes-Natura de Excelência em Pesquisa. O trabalho de Diogo Soares Menezes Samia, que realizou seu estudo pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e atualmente é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), buscou identificar as características das espécies que se mostram mais adaptadas a conviver com humanos, e chegou a algumas conclusões surpreendentes.
O estudo [1] ficou com o primeiro lugar na categoria “Sociobiodiversidade e Conservação Biológica” do Prêmio Capes-Natura, que teve sua primeira edição finalizada em 2016. O objetivo da premiação foi estimular a produção de artigos de alta relevância e impacto para o desenvolvimento científico e tecnológico voltados à sustentabilidade e conservação da biodiversidade. A outra categoria do prêmio, intitulada “Sustentabilidade: novos materiais e tecnologias”, teve como vencedor o trabalho desenvolvido pelo pesquisador Fernando do Couto Rosa Almeida.
Para levarem os primeiros lugares, os dois estudos ganhadores tiveram que se destacar em um universo de 268 trabalhos inscritos. Em entrevista ao Natura Campus, Diogo Samia detalhou os objetivos e metodologia utilizados em seu estudo, que lhe garantiu uma premiação no valor de R$25 mil. O pesquisador ressaltou a importância da promoção de incentivos à pesquisa como o realizado pela Natura em parceria com a CAPES, órgão federal que coordena os cursos de pós-graduação no Brasil. “Acho importante que as grandes empresas assumam esse papel social e invistam cada vez mais em pesquisa, não só na questão ambiental, que é sim uma questão chave, mas também em aspectos sociais, tais como a diminuição da pobreza, qualidade de vida da comunidade local, entre outros. A Natura é com certeza uma pioneira nesse cenário”, afirmou.
Meta-análise dá resultado surpreendente sobre aves
De acordo com o pesquisador Diogo Samia, a interface entre ecologia comportamental e conservação biológica é relativamente recente, mas vem ganhando destaque desde a última década. Ainda são muitas as questões em aberto e sua proposta foi responder a algumas delas.: “A partir da revisão da literatura, começamos a conhecer as lacunas no conhecimento, perguntas que ainda não haviam sido respondidas dentro desta área, e chegamos na questão principal do artigo, que foi descobrir quais são as características morfológicas, de história natural e de história de vida das espécies mais tolerantes à convivência com os humanos. Esse conhecimento nos possibilita predizer quais serão as espécies mais e menos ameaçadas pelo vertiginoso crescimento populacional humano, o qual, entre outras consequências, tem resultado num maior contato entre o homem e as populações naturais. Ninguém tinha respondido essa pergunta ainda, estava em aberto”, relembra Diogo.
O método adotado para o desenvolvimento do estudo foi a meta-análise, uma abordagem que possibilita a integração dos resultados oriundos de estudos independentes, mesmo que tais estudos tenham sido realizados com objetivos ligeiramente diferentes uns dos outros. Neste método, o pesquisador faz uma revisão sistemática da literatura disponível e analisa os dados de modo quantitativo (e não apenas qualitativo), levando em consideração vários fatores que podem ter influenciado os resultados dos estudos originais. A compilação de dados proporcionada pela análise da bibliografia trouxe alguns resultados que surpreenderam os autores do estudo ganhador do prêmio.
“Encontramos muita literatura sobre aves, o que nos deu a oportunidade de tirar conclusões mais robustas sobre esse grupo taxonômico. Via de regra, é difícil fazer generalizações em estudos dessa natureza, uma vez que o comportamento dos animais e os fatores ecológicos atuando sobre eles podem variar muito de uma região geográfica para outra”, explica Diogo. Segundo o pesquisador, a generalização mais importante que eles conseguiram identificar foi que espécies de aves com maior tamanho corporal são as que mais encontram facilidade em conviver com os humanos.
“Havia uma crença bem estabelecida de que quanto maior é a espécie, mais ela é sensível à presença humana, mas nós encontramos o oposto. Este resultado nos possibilita desenhar estratégias mais efetivas para a conservação da biodiversidade e mitigação dos impactos causados pelo homem”, afirma Diogo. O artigo é assinado também pelos cientistas brasileiros Fausto Nomura e Thiago Rangel, o cientista japonês Shinichi Nakagawa e o norte-americano Daniel Blumstein.
Após a vitória no Prêmio Capes-Natura, Diogo Samia está trabalhando em uma pesquisa sobre ecologia urbana, reconhecendo o padrão latitudinal do comportamento de aves ao longo do continente europeu. Diogo também está trabalhando no lançamento de um livro sobre ecoturismo, com publicação prevista para agosto de 2017. “A ideia é mostrar os impactos e os benefícios do ecoturismo e como podemos torná-lo mais efetivo para a conservação da biodiversidade e promoção das comunidades locais”, afirmou.
Saiba mais:
[1] Samia, D. S., Nakagawa, S., Nomura, F., Rangel, T. F., & Blumstein, D. T. (2015). Increased tolerance to humans among disturbed wildlife. Nature communications, 6.